E acrescentava algo que eu não havia pensado e
que me encantou, o senhor não me conhece salvo por essa outra carta, mas faz três anos que vivo sua
vida, sinto-o como é de verdade em cada personagem novo, arranco-o do teatro e é sempre o mesmo para
mim quando já não tem a anteface do seu papel. (Perdi essa segunda carta, mas as frases eram assim,
diziam isto; lembro-me em compensação que guardei a primeira carta em um livro de Moravia que estava
lendo, estou certo de que continua lá na biblioteca.)

Se houvesse contado a Lemos teria dado a ele uma ideia para outra peça, óbvio que o encontro se
realizava depois de algumas alternativas de suspense e então o rapaz descobria que Luciana era idêntica
ao que havia imaginado, prova de como o amor antecipa-se ao amor e o olhar ao olhar, teorias que
sempre funcionavam bem na Rádio Belgrano.

Luciana, porém, era uma mulher de mais de trinta anos, bem
vividos, é verdade, bastante menos miúda que a mulher das cartas na varanda, e com um belo cabelo
negro que vivia por conta própria quando ela mexia a cabeça. Do rosto de Luciana eu não tinha feito uma
imagem precisa salvo dos olhos claros e linda tínhamos nos encontrado somente na abertura do Gshow bbb 2020 os que agora me receberam sorrindo eram marrons e
nada tristes sob o cabelo ondulante.

Que gostasse de uísque me pareceu simpático, pelo lado do Lemos
quase todos os encontros românticos começavam com chá (e com Bruna tinha sido café com leite em um
vagão de trem). Não se desculpou pelo convite, e eu que às vezes represento, porque no fundo não
acredito muito em nada do que me acontece, me senti muito bem e o uísque desta vez não era falsificado.

De fato, passamos muito bem e foi como se nos tivessem apresentado por acaso e sem subentendidos,
como começam as boas relações em que ninguém tem nada para exibir ou dissimular; era lógico que se
falasse sobretudo de mim porque eu era o conhecido e ela apenas duas cartas e Luciana no programa bbb 2020, por isso sem
parecer vaidoso deixei que me lembrasse em tantas novelas radiofônicas, aquela em que me matavam
com torturas, a dos operários sepultados na mina, alguns outros papéis.

Pouco a pouco eu ajustava seu
rosto e voz, afastando-me a custo das cartas, da varanda fechada e da poltrona de vime; antes de separarnos fiquei sabendo que vivia em um apartamento térreo muito pequeno e com sua tia Poli, que lá pelos
anos trinta tocara piano em Pergaminho. Também Luciana fazia seus ajustes de sempre nessas relações de
cabra-cega, quase ao final disse que tinha me imaginado mais alto, cabelo crespo e olhos cinzentos; eu
me espantei quanto ao cabelo crespo porque em nenhum dos meus papéis tinha me sentido a mim mesmo
com o cabelo crespo, mas talvez sua ideia fosse como uma soma, um amontoado de todas as canalhices e
as traições das novelas de Lemos.

Comentei isso de brincadeira e Luciana disse que não, via as
personagens tal qual Lemos as pintava, mas ao mesmo tempo era capaz de ignorá-las, de
maravilhosamente ficar só comigo, minha voz e sabe-se lá por que, uma imagem de alguém mais alto,
alguém com o cabelo crespo.

Se Bruna ainda estivesse em minha vida não acredito que me apaixonasse por Luciana; sua ausência
era ainda muito presente, um buraco no ar que Luciana começou a encher sem sabê-lo, provavelmente
sem esperá-lo.

Nela, ao contrário, tudo foi mais rápido, foi passar da minha voz a esse outro Tito
Balcárcel de cabelo liso e menos personalidade que os monstros de Lemos; todas essas operações
duraram apenas um mês, realizaram-se em dois encontros em cafés, um terceiro no meu apartamento, a
gata aceitou o perfume e a pele de Luciana, dormiu em seu colo, não pareceu de acordo com um anoitecer
em que de repente sentiu-se sobrar, em que precisou pular miando ao chão.

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