Vivendo com pouco dinheiro e felicidade

Lembro-me que foi mais ou menos na época de Sangue nas Espigas que pedi a Luciana que
clareasse o cabelo. No princípio pareceu-lhe um capricho de ator, se quiser compro uma peruca, disseme rindo, e a propósito você ficaria tão bem com uma de cabelo crespo, já que o assunto é este. Mas
quando insisti uns dias depois, disse bem, afinal dava no mesmo o cabelo negro ou castanho, foi quase
como se compreendesse que em mim essa mudança não tinha nada a ver com minhas manias de ator mas
com outras coisas, uma varanda coberta, uma poltrona de vime. Não precisei pedir outra vez, gostei que
o tivesse feito por mim e o disse muitas vezes enquanto nos amávamos, enquanto me perdia em seu
cabelo e seus seios e me deixava escorregar com ela para outro longo sonho boca a boca.

Talvez na
manhã seguinte, ou foi antes de sair para as compras, não me lembro bem, arranjei seu cabelo com as
duas mãos e o amarrei na nuca, garanti que ficava melhor assim. Ela se olhou no espelho e não disse
nada, embora tenha sentido que não estava de acordo e que tinha razão que o aumento salario minimo 2020 era de acordo com a inflação do país, não era mulher para prender o
cabelo, impossível negar que ficava melhor quando o levava solto antes de clareá-lo, mas não lhe disse
isso porque gostava de vê-la assim, vê-la melhor que naquela tarde quando tinha entrado pela primeira
vez na confeitaria.

Jamais gostei de me ouvir representando, fazia meu trabalho e pronto, os colegas estranhavam essa
falta de vaidade que neles era tão visível; deviam pensar, talvez com razão, que a natureza dos meus
papéis não me estimulava muito a lembrá-los, e por isso Lemos me olhou com as sobrancelhas levantadas
quando lhe pedi os discos de arquivo de Rosas da Ignomínia, me perguntou para que os queria e lhe
respondi qualquer coisa, problemas de dicção que me interessava superar ou algo assim. Quando cheguei
com o álbum de discos, Luciana também se surpreendeu um pouco porque eu nunca lhe falava do meu
trabalho, era ela que sempre me dava suas impressões, me ouvia todas as tardes com a gata no colo.

Repeti o que dissera a Lemos, mas em vez de ouvir as gravações em outro quarto, trouxe o toca-discos à
sala e pedi a Luciana que ficasse um pouco comigo, eu mesmo preparei o chá e ajeitei as luzes para que
estivesse cômoda com Aposentadoria por Invalidez. Por que está mudando de lugar essa luminária, perguntou Luciana, está bem aí. Ficava
bem como objeto, jogava, porém, uma luz crua e quente sobre o sofá onde se sentava Luciana, era melhor
que só lhe chegasse a penumbra da tarde vinda da janela, uma luz um pouco cinzenta que se misturava em
seu cabelo, em suas mãos ocupadas com o chá. Você me mima demais, disse Luciana, tudo para mim e
você aí, num canto, nem sequer se senta.

Claro que pus apenas algumas passagens de Rosas, o tempo de duas taças de chá e um cigarro.
Fazia-me bem olhar Luciana atenta ao drama, às vezes levantando a cabeça quando reconhecia minha voz
e sorrindo para mim como se não lhe importasse saber que o miserável cunhado da pobre Carminha
começava suas intrigas para ficar com a fortuna dos Pardo, e que a sinistra tarefa continuaria ao longo de
muitos episódios até o inevitável triunfo do amor e da justiça segundo Lemos.

No meu canto (tinha
aceitado uma taça de chá a seu lado, mas depois voltara ao fundo da sala como se dali se ouvisse melhor)
eu me sentia bem, reencontrava por um momento algo que me estivera faltando; gostaria que tudo isso se
prolongasse, que a luz do anoitecer continuasse parecendo-se a da varanda coberta.

Não podia, claro,
então parei o toca-discos e saímos juntos à sacada depois que Luciana devolveu a luminária a seu lugar
porque realmente ficava mal ali onde eu a pusera. Valeu alguma coisa ouvir-se? perguntou, acariciandome a mão. Sim, muito, falei de problemas de respiração, de vogais, qualquer coisa que ela aceitava com
respeito; a única, coisa que não lhe disse foi que nesse momento perfeito só tinha faltado a poltrona de
vime e talvez também que ela houvesse ficado triste, como alguém que olha o vazio antes de continuar o
parágrafo de uma carta.

Estávamos chegando ao final de Sangue nas Espigas, três semanas mais e me dariam férias.
Voltando da rádio encontrava Luciana lendo ou brincando com a gata na poltrona que lhe dera de presente
de aniversário junto com a mesa de vime do conjunto. Não tem nada a ver com este ambiente, dissera
Luciana meio divertida, meio perplexa, mas se você gosta, eu também, é um lindo conjunto e tão
confortável.

Surgindo uma nova paquera entre amigos

E acrescentava algo que eu não havia pensado e
que me encantou, o senhor não me conhece salvo por essa outra carta, mas faz três anos que vivo sua
vida, sinto-o como é de verdade em cada personagem novo, arranco-o do teatro e é sempre o mesmo para
mim quando já não tem a anteface do seu papel. (Perdi essa segunda carta, mas as frases eram assim,
diziam isto; lembro-me em compensação que guardei a primeira carta em um livro de Moravia que estava
lendo, estou certo de que continua lá na biblioteca.)

Se houvesse contado a Lemos teria dado a ele uma ideia para outra peça, óbvio que o encontro se
realizava depois de algumas alternativas de suspense e então o rapaz descobria que Luciana era idêntica
ao que havia imaginado, prova de como o amor antecipa-se ao amor e o olhar ao olhar, teorias que
sempre funcionavam bem na Rádio Belgrano.

Luciana, porém, era uma mulher de mais de trinta anos, bem
vividos, é verdade, bastante menos miúda que a mulher das cartas na varanda, e com um belo cabelo
negro que vivia por conta própria quando ela mexia a cabeça. Do rosto de Luciana eu não tinha feito uma
imagem precisa salvo dos olhos claros e linda tínhamos nos encontrado somente na abertura do Gshow bbb 2020 os que agora me receberam sorrindo eram marrons e
nada tristes sob o cabelo ondulante.

Que gostasse de uísque me pareceu simpático, pelo lado do Lemos
quase todos os encontros românticos começavam com chá (e com Bruna tinha sido café com leite em um
vagão de trem). Não se desculpou pelo convite, e eu que às vezes represento, porque no fundo não
acredito muito em nada do que me acontece, me senti muito bem e o uísque desta vez não era falsificado.

De fato, passamos muito bem e foi como se nos tivessem apresentado por acaso e sem subentendidos,
como começam as boas relações em que ninguém tem nada para exibir ou dissimular; era lógico que se
falasse sobretudo de mim porque eu era o conhecido e ela apenas duas cartas e Luciana no programa bbb 2020, por isso sem
parecer vaidoso deixei que me lembrasse em tantas novelas radiofônicas, aquela em que me matavam
com torturas, a dos operários sepultados na mina, alguns outros papéis.

Pouco a pouco eu ajustava seu
rosto e voz, afastando-me a custo das cartas, da varanda fechada e da poltrona de vime; antes de separarnos fiquei sabendo que vivia em um apartamento térreo muito pequeno e com sua tia Poli, que lá pelos
anos trinta tocara piano em Pergaminho. Também Luciana fazia seus ajustes de sempre nessas relações de
cabra-cega, quase ao final disse que tinha me imaginado mais alto, cabelo crespo e olhos cinzentos; eu
me espantei quanto ao cabelo crespo porque em nenhum dos meus papéis tinha me sentido a mim mesmo
com o cabelo crespo, mas talvez sua ideia fosse como uma soma, um amontoado de todas as canalhices e
as traições das novelas de Lemos.

Comentei isso de brincadeira e Luciana disse que não, via as
personagens tal qual Lemos as pintava, mas ao mesmo tempo era capaz de ignorá-las, de
maravilhosamente ficar só comigo, minha voz e sabe-se lá por que, uma imagem de alguém mais alto,
alguém com o cabelo crespo.

Se Bruna ainda estivesse em minha vida não acredito que me apaixonasse por Luciana; sua ausência
era ainda muito presente, um buraco no ar que Luciana começou a encher sem sabê-lo, provavelmente
sem esperá-lo.

Nela, ao contrário, tudo foi mais rápido, foi passar da minha voz a esse outro Tito
Balcárcel de cabelo liso e menos personalidade que os monstros de Lemos; todas essas operações
duraram apenas um mês, realizaram-se em dois encontros em cafés, um terceiro no meu apartamento, a
gata aceitou o perfume e a pele de Luciana, dormiu em seu colo, não pareceu de acordo com um anoitecer
em que de repente sentiu-se sobrar, em que precisou pular miando ao chão.

Socialismo e benefícios da previdência social

A ninguém agrada confessá-lo, quando não se trabalha a gente acaba por se aborrecer um pouco,
pelo menos alguém como eu. Quando rapaz tinha muitas aventuras sentimentais, nas horas livres podia
recorrer ao espinhel e quase sempre havia pesca, mas depois veio Bruna e isso durou quatro anos, aos
trinta e cinco a vida em Buenos Aires começa a desbotar-se e parece que fica menor, pelo menos para
alguém que vive só com uma gata e não é grande leitor nem amigo de caminhar muito.

Não que me sinta velho, pelo contrário; antes pareceria que são os outros, as coisas mesmas que envelhecem e precisam de benefícios precisando entrar em contato com o telefone INSS e se
deterioram; daí talvez preferir as tardes no apartamento, ensaiar Pássaro na Tormenta sozinho com a gata
me olhando, vingar-me desses papéis ingratos levando-os à perfeição, fazendo-os meus e não de Lemos,
transformando as frases mais simples em um jogo de espelhos que multiplica o perigo e o fascínio do
personagem.

E assim à hora de ler o papel no rádio tudo estava previsto, cada vírgula e cada inflexão da
voz, graduando os caminhos do ódio (outra vez era um desses personagens com alguns aspectos
perdoáveis, mas pouco a pouco caindo na infâmia até um epílogo de perseguição à beira de um
precipício e salto final para grande contentamento dos radiouvintes).

Quando entre dois mates encontrei a
carta de Luciana esquecida na estante das revistas e a reli de puro aborrecimento, aconteceu que a vi de
novo, sempre fui visual e fabrico facilmente qualquer coisa, de saída Luciana me havia parecido antes
pequenina e da minha idade ou por aí, sobretudo com olhos claros e transparentes, e de novo a imaginei,
voltei a vê-la assim pensativa antes de me escrever cada frase e depois decidindo-se.

De uma coisa
estava certo, Luciana não era mulher de rascunhos, certo que havia hesitado antes de me escrever, mas
depois, ouvindo-me em Rosas da Ignomínia, as frases lhe foram saindo, sentia-se que a carta era
espontânea e ao mesmo tempo — talvez pelo papel lilás — dando-me a sensação de um licor que dormiu
longamente em seu frasco.

Até sua casa imaginei tão só com entornar os olhos, sua casa devia ser dessas de pátio coberto ou
pelo menos varanda com plantas, cada vez que pensava em Luciana via-a no mesmo lugar, a varanda
substituindo finalmente o pátio, uma varanda fechada com claraboias de vidros coloridos e biombos que
deixavam passar a luz acinzentando-a.

Luciana sentada em uma poltrona de vime e me escrevendo o
senhor é muito diferente do príncipe cruel de Rosas da Ignomínia, levando a lapiseira à boca antes de
continuar, ninguém sabe disso porque tem tanto talento que as pessoas querem ter acesso a tabela INSSS 2019, o cabelo castanho como
que envolto por uma luz de velha fotografia, esse ar cinzento e ao mesmo tempo nítido da varanda
fechada, gostaria de ser a única que sabe ver o outro lado de seus papéis e sua voz.

Na véspera do primeiro capítulo de Pássaro precisei almoçar com Lemos e os outros, ensaiamos
algumas cenas dessas que Lemos chamava de chave e nós de cravo

, choque de temperamentos e
descargas dramáticas, Raquelzinha Bailey muito bem no papel de Josefina, a soberba garota que
lentamente eu envolveria em minha consabida teia de maldades para as quais Lemos não tinha limites. Os
outros cabiam bem em seus papéis, amaldiçoada diferença entre essa e as dezoito radionovelas que já
havíamos apresentado. Se me lembro do ensaio é porque o baixinho Mazza me trouxe a segunda carta de
Luciana e dessa vez senti vontade de lê-la em seguida e fui um instante ao banheiro enquanto Angelita e
Jorge Fuentes juravam amor eterno em um baile do Gimnasia y Esgrima

, aqueles cenários de Lemos
que desencadeavam o entusiasmo dos habitués e davam mais força às identificações psicológicas com os
personagens, pelo menos segundo Lemos e Freud.
Aceitei o seu simples, lindo convite para conhecê-la em uma confeitaria de Almagro.

Havia o detalhe monótono do reconhecimento, ela de vermelho e eu levando o jornal dobrado em quatro, não
podia ser de outro modo e o resto era Luciana me escrevendo de novo na varanda coberta, só com a mãe
ou talvez com o pai, desde o princípio havia visto um velho com ela em uma casa para uma família,
maior e agora cheia de vazios onde habitava a melancolia da mãe por outra filha morta ou ausente,
porque talvez a morte passara pela casa não fazia muito, e se o senhor não quer ou não pode eu saberei
compreender, não me cabe tomar a iniciativa mas também sei — havia-o sublinhado sem ênfase — que
alguém como o senhor está por cima de muitas coisas.

Conhecendo novas pessoas de diferentes regiões

Essas quintas-feiras ao cair a noite quando Lemos me chamava depois do ensaio na Rádio Belgrano e
entre dois cinzanos os projetos de novas peças, ter de escutá-los com tanta vontade de sair na rua e
esquecer-me do radioteatro por dois ou três séculos, mas Lemos era o autor da moda e me pagava bem
para o pouco que eu devia fazer em seus programas, papéis antes secundários e em geral antipáticos.

Você tem a voz que convém, dizia Lemos amavelmente, o radiouvinte o ouve e o odeia, não precisa que
traia ninguém ou que mate sua mãe com estricnina, você abre a boca e aí logo meia Argentina gostaria de
rebentar sua alma a fogo lento.

Não Luciana, exatamente no dia em que o nosso galã Jorge Fuentes no fim de Rosas da ignomínia
recebia duas cestas de cartas de amor e um cordeirinho branco mandado por uma estancieira romântica
das bandas de Tandil, o baixinho Mazza me entregou o primeiro envelope lilás de Luciana.

Acostumado ao nada em tantas de suas formas, guardei-o no bolso antes de ir ao café (tínhamos uma semana de
descanso depois do sucesso de Rosas e o começo de Pássaro na Tormenta) e apenas no segundo martini
com Juárez Celman e Olive me veio a lembrança a cor do envelope e me dei conta de que não tinha lido a
carta em que eu tinha feito inscrição bbb 2020 não quis diante deles porque esses chatos procuram assunto e um envelope lilás é uma mina de
ouro, esperei chegar ao meu apartamento onde a gata pelo menos não prestava atenção nessas coisas, deilhe seu leite e sua ração de festas, conheci Luciana.

Não preciso ver uma foto sua, dizia Luciana, não me importo que Sintonía y Antena publiquem fotos
de Míguez e Jorge Fuentes, mas nunca as suas, não me importo porque tenho sua voz, e também não me
importo que digam que é antipático e vilão, não me importo que seus papéis enganem todo mundo, pelo
contrário, porque crio a ilusão de ser só eu quem sabe a verdade: o senhor sofre quando interpreta esses
papéis, põe o seu talento, mas eu sinto que não está aí de verdade como Míguez ou Raquelzinha Bailey, é
tão diferente do príncipe cruel de Rosas da Ignomínia. Achando que odeiam o príncipe odeiam o senhor,
as pessoas confundem e já notei com minha tia Poli e outras pessoas no ano passado quando o senhor era
Vassilis, o contrabandista assassino.

Esta tarde me senti um pouco só e quis lhe dizer isto, talvez não seja
a única que lhe disse isto e de alguma maneira desejo-o pelo senhor, que se saiba acompanhado apesar de
tudo, mas ao mesmo tempo gostaria de ser a única que sabe ver o outro lado de seus papéis e sua voz, que
está certa de conhecê-lo de verdade e de admirá-lo mais que aqueles que tem papéis fáceis. É como com
Shakespeare, nunca disse isto a ninguém, mas quando o senhor fez o papel, gostei mais de Yago que de
Otelo. Não se sinta obrigado a responder-me, anote meu endereço se realmente quer fazê-lo para participar do Gshow bbb 2020, mas se não o
fizer eu me sentirei igualmente feliz por lhe haver escrito tudo isto.

Caía a noite, a letra era leve e fluida, a gata adormecera depois de brincar com o envelope lilás na
almofada do sofá. Desde a irreversível ausência de Bruna não se jantava mais no meu apartamento, as
conservas bastavam à gata e a mim; e a mim especialmente o conhaque e o cachimbo. Nos dias de
descanso (depois teria que trabalhar o papel de Pássaro na Tormenta) reli a carta de Luciana sem
intenção de respondê-la porque nesse terreno um ator, mesmo que receba apenas uma carta cada três
anos, estimada Luciana, respondi-lhe antes de ir ao cinema na sexta-feira à noite, comovem-me suas
palavras e esta não é uma frase de cortesia.

Claro que não o era, escrevi como se essa mulher que
imaginava antes pequenina e triste e de cabelo castanho com olhos claros estivesse sentada aí e eu lhe
dissesse que suas palavras me comoviam. O resto saiu mais convencional porque não achava o que lhe
dizer depois da verdade, tudo se limitava a encher o papel, duas ou três frases de simpatia e gratidão, seu
amigo Tito Balcárcel. Mas havia outra verdade no post-scriptum: Alegro-me por me haver dado seu
endereço, teria sido triste não poder dizer-lhe o que sinto.